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49º Brasília (2016) – noite 3

Um perspectiva, por dentro, da histórica dor dos Guarani Kaiowá.

Por Luiz Joaquim | 24.09.2016 (sábado)

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BRASÍLIA (DF) – Pode um filme iniciar uma mudança contra uma injustiça secular? Não se pode dizer. Na verdade, o que ele pode é, ao menos, estimular o desejo de imediato de que essa mudança de fato aconteça. E esse é um começo válido. Nesse sentido, Martírio, documentário de Vincent Carelli, com colaboração de Ernesto de Carvalho e Tita – apresentado em competição na noite de quarta-feira (22) no 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro -, despertou e comoveu a plateia contra o histórico de opressão e violência vivida pelos índios Guarani Kaiowá.

O resultado foi uma sessão inesquecível, ovacionada, com diversas reações em cena aberta, e encerrada com cinco minutos de aplausos de envolvimento sincero.

 

Interessante observar que Martírio trazia consigo uma prévia informação que pesava num pré-julgamento para alguns espectadores: sua duração de 160 minutos. Mas, uma vez iniciada a jornada da proposta por Carelli em revisar o histórico de sofrimento (e determinação) de toda uma população indígena – e com essa proposta fluindo entre riquíssimo material de arquivo e uma investigação e contextualização contemporânea -, a extensão da minutagem deixou de ser uma questão.

Como organizar num documentário séculos de história? E, na verdade, uma história que foi prioritariamente contada pelo branco, pelo opressor contra o oprimido? Carelli e equipe recorreram a um riquíssimo material de arquivo que puseram sob uma audaciosa perspectiva indigenista até mesmo por figuras intocadas como a do Marechal Rondon, uma vez que, visto por hoje, a ideia de “civilização” dos índios feito pelo “Marechal da Paz” no início século passado podia sim ser relativizada.

Mas Carelli busca Rondon e outros pontos da história contra os Guarani Kaiowá – como o processo escravo pelo qual foram submetidos na exploração do ciclo da erva-mate – para destacar uma luta que ainda acontece.

Foi, a propósito, de um material de arquivo do próprio realizador, registrado em 1988 sobre uma comunidade Guarani Kaiowá, que Carelli deu partida para Martírio. Por um conversa sem tradução para o português de um grupo Kaiowá naquela data, vemos um discussão que só será contextualizada mais adiante na narrativa do filme, e que só revela o grau de discernimento daqueles índios sobre sua antiga condição de vítima e injustiçados.

Na construção dessa revisão histórica, Carelli também ressalta a tradicional personalidade generosa e espiritual daqueles índios, e a contrasta com o eterno abuso do branco no poder – político ou econômico – a partir desse voto de confiança dado pelos Kaiowá.

Trazendo para o contemporâneo, o contraste dessa violência demonstra-se no filme de forma constrangedora pela ideologia predatória do poder, particularmente quando percebemos pelo documentário a dimensão tosca em que parlamentares da bancada ruralista e as principais cabeças do agronegócio se colocam diante da questão.

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Ao contrário do premiado Corumbiara (2009), longa anterior de Carelli pelo qual apresenta um tom mais definitivo sobre o massacre indígena no sul de Rondônia, em Martírio o documentarista ressalta um desejo de solução para essa luta secular dos Kaiowá. Tão bem representada aqui em seu filme, tocando profundo em qualquer espectador atento.

Em entrevista coletiva ontem pela manhã (23), Carelli disse que seu desafio era também fazer de Martírio uma obra para além do gueto do “filme etnográfico”.Pela comoção provocada em Brasília, pode-se dizer que ele foi exitoso.

Martírio, realizado por meio de um financiamento coletivo, deverá ganhar uma versão em cinco capítulos para uma minissérie a ser exibida pelo Canal Curta! (TV paga), ainda sem data de lançamento.

Já o longa-metragem, junto com Corumbiara, adiantou o cineasta, serão completados com um projeto futuro chamado Adeus capitão, fechando uma trilogia. Neste próximo projeto, outro assunto delicado: os processos de indenização para os índios, visto já como uma espécie de indústria.

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