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Críticas

A Qualquer Custo

Este western moderno concorre a quatro Oscars, mas poderia está na disputa por outros dois. Fácil.

Por Luiz Joaquim | 11.02.2017 (sábado)

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É preciso muita sabedoria para desenhar um universo tão realista e, ao mesmo tempo, crítico desse espaço geográfico com sua particular cultura. E, somando-se a isso, fazê-lo inteligível a qualquer pessoa fora daquele específico universo, evitando, também, a obviedade nesse recado.

Envolvente e intrigante, essas são as palavras para definir a maneira como o diretor irlandês David Mackenzie pintou o roteiro escrito por Taylor Sheridan (mesmo de Sicário) de A qualquer custo (Hell or High Water, EUA, 2016). E não apenas por isso, mas também por compor a ideia de um típico western, só que num ambiente pleno do século 21.

O filme está em cartaz no Brasil desde 2 de fevereiro, e concorrendo a quatro estatuetas douradas no próximo dia 26. Ele briga pelo título de melhor filme, roteiro original, montagem e ator coadjuvante (Jeff Bridges, em sua sétima indicação).

Curioso descobrir que Bridges aqui é um coadjuvante pois seu brilho é tanto que ofusca o protagonismo de Chris Pine (o Capitão Kirk do contemporâneo Jornadas nas estrelas). Pine é Toby, irmão mais novo de Tanner (Ben Foster), ex-detento violento que passou dez anos na prisão e agora ajuda o caçula em pequenos assaltos a bancos de uma mesma bandeira. Todas pequenas agências em pequenos municípios do oeste do Texas (EUA).

 

Além da necessária camada de informações que nos faz ficarmos divididos entre torcer pelos bandidos mas também pelo veterano delegado Marcus (Bridges), prestes a se aposentar e que caça os assaltantes como se fosse sua última grande ação como homem da lei, A qualquer custo relaciona tudo isso à própria história política do Texas e do massacre contra os índios e mexicanos que viviam ali há 150 anos.

A figura de Alberto (Gil Birmigham), o policial parceiro, e um pouco mais jovem que Marcus acompanhando-o na caçada, é o elo que funde a hipocrisia da realidade atual daquela região (com os banqueiros, neste século 21, liquidando hipotecas e tomando as ricas terras de texanos) com a realidade do século 19, quando os confederados roubaram as terras que pertenciam aos índios comanche e aos mexicanos.

O delegado fanfarrão de Bridges quase ofusca a todos em A qualquer custo, mas o mestiço composto por Birmigham é tão equilibrado e forte como tinha de ser, pois ele funciona não apenas como uma ‘escada’ para as piadas de Marcus – “Você sabe que eu sou meio mexicano, não sabe?” diz Alberto a Marcus. E ele responde: “É, bem, também vou tirar onda sobre isso, mas só quando eu terminar com os insultos indígnas, e isso vai demorar” -, pois Alberto funciona aqui também como o elemento concreto da injustiça.

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A mesma injustiça que move Toby a assaltar o banco (ou o ‘sistema capitalista’, numa tradução mais abrangente) que arrasa tanto crápulas quanto cidadãos honestos, assim como Toby sempre foi.

A sofisticada estrutura que crítica esse contexto, no roteiro de Sheridan, também ganha um humor e é por ele que se traduz aqui nesse filme a melhor expressão do texano médio, de sua região oeste. Faz com isso que A qualquer custo não perca em nada para o mais clássico dos westerns com todos os elementos que o tornaram a essencial do gênero cinematográfico norte-americano. Com direito inclusive, em seu climax, com um bandido encurralado num desértico morro.

Aqui, onde as caminhonetes gigantes substituiem os alazões cruzando os canyons, temos um filme de brutos – atenção para a declaração de amor do irmão Tunner para Toby. Ele diz, sem olhar nos olhos do caçula: “Ei Toby, eu te amo, sério.”. E Toby: “Te amo, também”. Para logo em seguida ambos se despedirem com um: “Ei Toby, vá se f*#@r!”. E o outro, rindo retruca: “F*#@-se também!”.

Todos são brutos – inclusive as mulheres, como a vovó que serve café há 44 anos num mesmo restaurante – mas são também cômicos, ainda que guardem sofrimentos e preconceitos texanos nao resolvidos há 150 anos.

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