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Festivais

Joaquim (crítica – 67º Berlim)

A desconstrução de um inocente ou a construção de um herói iludido, por Marcelo Gomes.

Por Luiz Joaquim | 16.02.2017 (quinta-feira)

Mathias (Nuno Lopes), Inhambupé (Karai Rya Pua) e Joaquim (Julio Machado) - Copyright REC Produtores and Ukbar Filmes
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Com sessão encerrada há cerca de 60 minutos – início da tarde na Alemanha, manhã no Brasil – para a imprensa mundial no Berline Palast (a sala reservada à programação competitiva do 67º Festival de Berlim), o quinto longa-metragem de Marcelo Gomes, Joaquim (Bra., 2017), dá partida a uma peculiar história que irá construir dentro do cinema e, mais em particular, do cinema brasileiro.

Isso porque com Joaquim, Gomes apresenta um raro equilíbrio, bastante sofisticado de ser alcançado, no que concerne a uma sintonia cinematográfica entre o coloquial e o crível, entre o desprendido e o convincente, para poder nos contar uma história de época.

E não estamos falando de qualquer história de época, mas de uma que é estudada na escola brasileira e já foi revisitada várias vezes pela arte, incluindo o cinema. O ‘Joaquim’ do título, à propósito, é Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

A força do ‘crível’ e do ‘convincente’ – muito bem emaranhada à força do ‘coloquial’ e do ‘desprendido’ – que constatamos no filme, opera numa outra instância de envolvimento. Observar Joaquim em sua mise-en-scènenos chega quase como se a proposta fosse a de um registro documental (ainda que, lógico, com o rebuscamento da dramaturgia encenada).

É quase como se o filme não reservasse espaço para a dúvida (isso num bom sentido) de que ali, no interior das Minas Gerais do século 18, era daquela forma que se davam as relações humanas entre brancos, negros e índios. E, de maneira curiosa, Joaquim, o filme, acaba soando como um drama contemporâneo, pois seu foco está num trabalhador que quer apenas garantir sua ascensão social e acaba sendo tragado por um sistema que o engole, e, ao final, o degola.

Nada mais atual do que o individualismo do cidadão contemporâneo, e nada mais perturbador, no Brasil de hoje, do que o cidadão que se envolve, de forma iludida, numa luta política da qual ele não alcança suas reais intenções. É assim com o fiel alferes Joaquim criado por Marcelo Gomes. Um personagem ignorante da totalidade da dimensão que significará o seu envolvimento com as ideias revolucionárias da inconfidência.

Não à toa, a primeira fala que se escuta em Joaquim, dita em off pela voz do protagonista (o ator Júlio Machado), é a de que todos os inconfidentes foram punidos, mas ele foi o único que perdeu a cabeça. Metafórica e literalmente. Em tom fantasmagórico, a assertiva é dada como um lamento antecipado do homem que entrou numa briga que originalmente não era a sua, e foi ali usado, como já mencionou o próprio Marcelo Gomes, como uma espécie de “boi de piranha” pela burguesia de então.

 

O mesmo boi de piranha que o alferes Joaquim gostaria de ter para jogar num rio infestado de peixes carnívoros. O rio com o qual se depara ao cruzar o sertão mineiro, com a missão de encontrar pedras preciosas para abastecer o Império português. Acompanhado nessa missão pelo caboclo Januário (Rômulo Braga), pelo alferes português Matias (Nuno Lopes), além do escravo João (Welket Bungué) e do índio Inhabumpé (Karai Rya Pua), Joaquim tinha como objetivo muito particular ser promovido nos serviços que prestava à Coroa para conseguir recursos e poder comprar de um senhorio a escrava Preta (Isabél Zuaa), sua paixão.

Durante o percurso trilhado por Joaquim, Gomes abre espaço para incorporar no enredo ao menos três outros aspectos sociais da época de maneira muito crua, cujo reflexo nos atinge em cheio no nosso momento contemporâneo.

Eles são a corrupção (com garimpeiros tentando safar-se da lei), a opressão racista (com Preta exigindo ser reconhecida pelo seu nome africano de batismo) e, talvez naquele que é um dos mais inspirados momentos do filme, quando o diretor introduz a riqueza própria da mistura de etnias que caracterizam o Brasil (quando negro e índio, no descanso da noite, brincam fazendo uma espécie de jam session, na qual cada um entoa canções de suas tribos e alternam suas melodias, criando uma única musicalidade. Como já falou Gomes, é quase como se ali testemunhássemos uma espécie de hip-hop do século 18, no interior do Brasil. Isto que parece ser difícil de construir – e o é, tem um resultado incrível.

João (Welket Bunge), Joaquim (Julio Machado), Januário (Rômulo Braga) and Mathias (Nuno Lopes) - Copyright REC Produtores and Ukbar Filmes

Fotos e vídeo: divulgação

Joaquim, o filme, foi rodado em milagrosas quatro semanas – considerando-se ser um filme de época, além das complicadas locações em Diamantina (MG) – e tem na câmera na mão de Pierre de Kerchove (Hoje eu quero voltar sozinho), combinada ao figurino despretensioso, mas preciso de Rô Nascimento, e da direção de arte de Marcos Pedroso, um dos trunfos que nos faz ficar tão próximo dos personagens. Isso corretamente equalizado a ponto de nunca acharmos nada pobre, ou feio, ou inadequado. E, ao mesmo tempo, nos lembrando da distância necessária para nos deixar claro que aquela é uma história própria de uma época que não existe mais.

E pensar que o projeto nasceu de uma encomenda, que não vingou, da produtora espanhola Wanda Filmes, que desejava produzir uma série para a tevê sobre oito heroicas figuras latino-americanas.

Que tiro certeiro deu esse Marcelo Gomes.

A exibição de gala de Joaquim no 67º Festival de Berlim acontece logo mais, às 19h de lá (16h em Brasília).  O filme entra em cartaz no circuito comercial brasileiro próximo dia 20 de abril, um dia antes das comemorações de Tiradentes por aqui.

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