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Críticas

Moonlight: Sob a luz do luar

Porque nunca somos totalmente o que parecemos ser.

Por Luiz Joaquim | 28.02.2017 (terça-feira)

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É bacana como esse segundo longa-metragem dirigido por Barry Jenkins – Moonlight: Sob a luz do luar (Moonlight, EUA, 2016) – foi chegando quieto e tomando com elegância o espaço que lhe era merecido na história do cinema neste biênio 2016/2017. Até a sua própria premiação na 89ª cerimônia do Oscar, como melhor filme, também pode ser compreendida assim.

Primeiro, por um equívoco da produção do evento, jogou-se foco de luz e música grandiloquente sobre o anúncio do favorito La la land, para só depois, de maneira atrapalhada e sem protocolo nenhum, a equipe de Moonlight ser chamada ao palco porque era ela que realmente merecia a honraria máxima da indústria cinematográfica.

Curioso, inclusive, que a trajetória desse filme de Jenkins – realizado ao custo de US$ 1,5 milhão (tornando-se a mais barata produção a ganhar um Oscar de melhor filme) – tenha encerrado com a coroação máxima da indústria.

O percurso de sucesso de Moonlight iniciou num pequenino festival de cinema no Colorado (EUA), no 43º Telluride Film Festival em princípios de setembro de 2016. De lá, só não saiu vencedor porque ali não existe prêmio, júri, rodada de mercado, sessões cabine para imprensa, tapete vermelho ou sessões de foto. É um festival que celebra apenas a festa de filmes.

De lá, no mesmo mês, o filme de Jenkins foi para seu primeiro grande evento, em Toronto (Canadá), do qual recebeu o título de melhor filme e Marhershala Ali, o de melhor ator coadjuvante. Dali por diante, nos cinco meses que se seguiram até agora, participou de outras 85 competições, saindo-se exitoso de quase todas; e tendo estreado no circuito comercial norte-americano em 18 de novembro do ano passado. Um fenômeno.

O FILME – Já fartamente divulgado, o enredo de Moonlight divide-se em três atos para contar a vida do protagonista Chiron (Alex  R. Hibbert, criança; Ashton Sanders, adolescente; Trevante Rodhes, adulto).

 

Identificados pelo nome predominante do protagonista em cada uma fase de sua vida, os três atos do filme – Little (pequeno), Chiron  e Black (preto) – guardam entre outras qualidades as sutilezas dos trejeitos de Chiron desenvolvidas pelos três atores que o encarnam.

Seja pelo balanço na forma como ele caminha, seja pelo seu olhar profundo, seja pelo silêncio de Chiron, estamos sempre tentando decifrar o que ele esconde por trás de tanta fúria e também delicadeza. Não que não tenhamos entendido desde o princípio, mas é que alguns dados que darão a dimensão dos sentimentos de Chiron só nos serão repassados no ato de sua fase adulta.

Vemos a violência pela qual Chiron sofre e a testemunhamos durante sua infância, com sua mãe viciada em crack (Naomi Harris, de bondgirl de Skyfall, aqui um pouco fora do tom) enquanto ele é adotado por um negociador de drogas em Miami (Marhershala Ali); e vemos também o amargor em sua adolescência, ainda que encontrando a alegria de um primeiro amor, mas chegando quase que instantaneamente seguida por uma decepção. Tais episódios o definem para o resto da vida, como se por ele fosse passado um verniz de absoluta reclusão e solidão.

Entre as drogas, a crise de identidade e a necessidade de se proteger de um mundo hostil, Chiron cresce e constrói sua imagem dentro de um estereótipo fácil de ser condenado por uma sociedade tão habituada a julgar com a facilidade do preconceito e racismo. Chiron adulto é um negro forte, com um carro caro e indiscreto, que se veste com ostentação, e cuja a vida gira em torno de uma prática ilegal e violenta. A venda de drogas.

O ponto fora da curva desta história é quando Moonlight (que foi adaptado do livro de Tarell Alvin McCraney) revela o quão frágil pode ser aquele personagem, que precisou endurecer para sobreviver.

Além da qualidade técnica – incluindo ótimas performances; a fotografia que impõe sentimento de urgência (vide o ato “Chiron” com a mãe do adolescente lhe exigindo dinheiro quando ele chega da escola); e a trilha sonora de Nicholas Britell – há outros aspectos que respondem pela vitoriosa trajetória de Moonlight.

Assim como Boi Neon, de Gabriel Mascaro, o filme descontrói com elegância o estereótipo sobre a figura masculina contemporânea e, assim como Mãe só há uma, de Anna Muylaert, revela a possibilidade da comunhão entre as diferenças de gênero, mas sem o fervor de uma militância engajada.

Não é à toa que o gesto final – silencioso e amoroso – tanto no filme de Muylaert quanto no de Jenkins são os mesmos. São filmes que apostam na aproximação e no não julgamento. São filmes que concluem ressaltando, mas sem estardalhaço, o que precisamos para melhorar nos dias de hoje, numa tão equivocada e egoísta segunda década do milênio.

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