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Clássicos

Gritos e Sussurros

A cor da alma, segundo Bergman

Por Luiz Joaquim | 13.05.2017 (sábado)

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-Texto publicado no Jornal do Commercio (Recife), no “Caderno C”, página 9, em 02 de outubro de 1998.

“Quando eu era criança, imaginava que a alma fosse um dragão, uma sombra flutuando no ar como uma fumaça azul – uma enorme criatura alada – meio pássaro, meio peixe. Mas dentro do dragão, tudo era vermelho”. Estas palavras de Ingmar Bergman, facilitam compreender o porquê do “exagero” dessa cor no seu filme Gritos e sussurros, cartaz da Sessão de Arte do grupo Severiano Ribeiro. Hoje (2-10-1998) e amanhã no Cine Recife e, na segunda-feira, “inaugurando” o São Luiz)*.

A primeira imagem que chega aos seus olhos é um vermelho chapado, apresentando os créditos em amarelo. O escarlate vai continuar por toda a película como que insistindo na ideia de que o interior da alma humana tem uma cor. E não é por acaso que Bergman faz essa analogia. O vermelho tem sua expressão explicitamente associada à dor em uma cena que deve fazer o público – particularmente o feminino – tremer as pernas.

Para entender esse filme, de linguagem extremamente simbólica, vale muito mais atentar para as situações conflitantes dos personagens do que procurar saber sobre seu passado. Como numa fábula infantil, da qual a gente extrai a verdade através do medo, o diretor sueco conta a história de três irmãs: Agnes (Harriet Andersson), Maria (Liv Ullmann), Karin (Ingrid Thulin) e a fiel criada Anna (Kari Slywan).

Agnes sofre de uma doença terminal e, o estado deprimente em que se encontra acaba estimulando a reflexão de suas irmãs pela atitude pessoal que cada uma assumiu ao tornar-se adulta. São flashbacks que revelam o rancor de Karin pelo marido, e o egoísmo e infidelidade alimentados por Maria. Apenas Anna, a criada, mantém a habilidade de tocar e amar.

Para deixar isso bem claro, Bergman cria uma situação na qual a moribunda, num momento de crise, clama às irmãs por um afago que minimize sua agonia. Nenhuma delas consegue oferecer isso. Maria, por exemplo, vira o rosto da cena em que a irmã agoniza. Na realidade, essa é também a nossa vontade, diante de tanto sofrimento exposto. Mas a câmera de Bergman não deixa. Ela nos obriga a olhar tudo, talvez, para despertar também em nós o que só Anna conserva.

Em determinado momento, a doce Anna vai acalentar Agnes que grita amedrontada no meio da noite. Não há cerimônia no ato. Anna faz do próprio seio o aconchego que Agnes precisa; oferecendo, assim, o que há de melhor: o calor do seu corpo. A força de como essa cena nos faz sentir, transmite um nível de sentimento humano tão elevado que dá medo de não fazer justiça tentando expressá-la com palavras.

E atenção, observe que Anna é a única que acredita em Deus nessa história. Certa vez Roger Ebert (crítico americano) questionou: “existe Deus no filme de Bergman, ou existe apenas a fé de Anna?”. Uma coisa é certa: existe um momento de perfeição. Gritos e sussurros convida o espectador a compartilhar de um instante de felicidade na vida de Agnes. Aquele em que ela, simplesmente, sente a presença e o calor das irmãs ao seu lado. Consciente disso, agradece à vida pelo momento. É perfeito.

* Nota do autor: O “inaugurando” diz respeito a migração da “Sessão de Arte” do Grupo Severiano Ribeiro, que acontecia nas segundas-feiras, do Cinema Veneza para o Cine São Luiz.

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