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Festivais

21. Cine-PE (2017) – Jardim das Aflições

Teófilo: “Incompreendido”. Olavo: “Maravilhoso”. Fãs, durante a sessão: “Bolsonaro 2018!”

Por Renata Malta | 29.06.2017 (quinta-feira)

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Em frente ao Cinema São Luiz (Recife), na fila que ia contornando o quarteirão, o diretor do longa-metragem O jardim das aflições (Bra., 2017), Josias Teófilo, 29 anos, tirava foto com fãs e entusiastas do autor Olavo de Carvalho. Camisas estampadas com “Olavo têm razão” e “Bolsonaro Presidente” pareciam ser o dress code da noite.

Os ingressos antecipados (80%) para o segundo dia do festival já haviam esgotado na tarde do dia anterior (27/6) e aqueles que tinham “um ingresso sobrando” vendiam por até quatro vezes o valor oferecido pela bilheteria.

O cenário adiantava a ansiedade da plateia pelo documentário do pernambucano baseado no livro homônimo ao filme Jardim das aflições, que aborda trechos da obra do autor Olavo de Carvalho comentadas por ele mesmo e acompanha o cotidiano dele e da família vivendo nos Estados Unidos.

A equipe do filme, sempre que citada, era ovacionada pelo público. Teófilo estava extasiado pela recepção e provocou o público ao questionar quem gostaria de ver o filme em cartaz naquela sala. Durante os 81 minutos de projeção, a cada fala do cinebiografado, ouvia-se de forma entusiasmada palmas e gargalhadas como resposta às opiniões do escritor na tela.

Após um grito de “Bolsonaro 2018!”, a celebração foi tão barulhenta no São Luiz que poderia ser comparada à balbúrdia no estádio de futebol após o gol que deu a vitória do campeonato pernambucano, naquela mesma noite, ao Sport Club do Recife.

COLETIVA – No debate dos filmes, ordinariamente realizado no dia seguinte à sessão, os representantes das obras exibidas discutiram hoje (29) além das questões de produção, a manutenção dos filmes selecionados e o boicote ao festival.

Estava presente no auditório o diretor da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Sergio Sá Leitão, que mostrou-se bastante interessado no filme Luiza e fez questionamentos ao diretor de fotografia Murilo Lazarin. O realizador falou que o documentário se trata do trabalho de conclusão de curso dele e de Baú, que já havia realizado um filme sobre a irmã anteriormente. Insatisfeito com a primeira produção realizada com recursos mínimos, a equipe composta por apenas três integrantes decidiu que só realizariam a obra quando houvesse os recursos necessários. O projeto foi vencedor de três editais, os realizadores optaram pelo financiamento através do fundo municipal de Curitiba.

Sandra Bertini, diretora do festival, elogiou a qualidade dos filmes universitários da edição e apontou especificamente a evolução dos filmes pernambucanos dos últimos anos e a equiparação do prêmio da competitiva nacional e pernambucana.

Sobre o Dia dos Namorados, o produtor Lucas Tergolina falou sobre estar presente em todo o processo do filme, da transformação do conto de Vera Cardoni em roteiro e do desconforto sentido na noite anterior com a reação de parte do público na exibição do seu filme. Citou ter ouvido alguém dizer “Lá vem o filme comunista!” e, a partir daí, a conversa tomou o rumo a respeito da permanência ou não dos filmes no festival.

Alguns realizadores como Mauricio Nunes e o próprio Tergolina concordaram em que há espaço para todas as obras e discussões.  Nunes afirmou que a equipe de O jardim das aflições deveria agradecer aos filmes que se retiraram do festival pela repercussão e completou demostrando seu desinteresse pelo tema do longa.

Foi a deixa para o produtor Ricardo Fadel Rihan de Real: O Plano  por trás da história, exibido na terça-feira (27), atiçar ainda mais a discussão, questionando “Por que Olavo incomoda tanto?”.

Quem continuaria a questão seriam os próprios realizadores do longa. Estavam presentes Josias Teófilo, o produtor Matheus Bazzo e, participando em vídeo por uma transmissão online, Olavo de Carvalho.

Crédito das fotos: Lana Pinho/Divulgação

Teófilo e Bazzo contaram como se conheceram pelo Facebook e como a ferramenta foi essencial para a promoção da campanha de financiamento coletivo. O diretor falou que foi excluído do meio cinematográfico de Pernambuco. Um meio que passou a ignorar suas produções depois do seu firmamento ideológico.

Teófilo ainda argumentou que a produção brasileira passa por um “vício retórico” em que só se escreve argumentos direcionados a editais e exemplificou com as obras do cineasta Gabriel Mascaro.  Completando que seu último trabalho, Boi neon, foi “muito interessante”. Josias, estreante em longas, diz também que a realização desses filmes, com temas do tipo “Luta de classe e Ditadura”, formam discursos que cansam.

Carvalho e Teófilo concordaram que o filme não aborda as polêmicas, nem abrange a filosofia do autor mas sim alguns temas do livro. O escritor fez questão de registrar que considera o filme “maravilhoso, impecável”. E completou: “Eu ajudei a parir a direita no Brasil, mas, não pertenço a ela”.

Quando questionado sobre imagens debochadas do impeachment de Dilma na obra, o diretor rebateu fazendo analogia à época em que o livro foi escrito, ou seja, durante o impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Ainda assim, se referiu ao petismo como pseudo-religião, mas acredita haver fanatismo nos dois extremos.

Para responder sobre a retirada dos filmes do festival, Josias usou as palavras “desrespeito, hostil e brutal”, e debochou dizendo que ninguém retirou filmes de festivais em que Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, foi exibido. Mas, o que ele acredita mesmo, diz, é na recepção afetuosa que vem recebendo do público. E ressalta mais na frente: “não existe filme de esquerda”.

Os envolvidos no longa acreditam que se trata de uma obra incompreendida ao seu tempo. Pode-se dizer, portanto, que, como toda obra que se anuncia a frente de seu tempo, ela pode receber no futuro – quando tudo estiver mais calmo – o carimbo de “imbecil” (ou não). Que o tempo responda, então.

Antes do bate-papo com Josias Teófilo e sua equipe, durante a coletiva, o  co-diretor de Ex-magico, Mauricio Nunes afirmou que a linguagem da animação é a única que permite criar as situações impossíveis propostas na narrativa.

Helena Ferreira de Almas secas revelou considerar um desafio a tarefa de executar uma animação. Já o diretor Marcus Paiva e o roteirista Fernando Matias Dejesus [escreve assim mesmo], felizes com a primeira participação do filme em um festival, falaram da intenção de criar um documentário cru e poético com Soberanos da resistência.

SOBRE OS CURTAS – Foi o curtíssimo Almas secas, co-dirigido por Elvis Miranda e Helena Ferreira, que deu início às projeções da noite de ontem (28) no São Luiz, antes do prato principal desta edição do Cine-PE dar as caras.

Sendo uma realização de estudantes do curso de Design da Universidade Federal de Caruaru, esta animação que dá vida ao monstro da seca apresentou dificuldades próprias de um trabalho acadêmico.

Marina e o passarinho perdido, animação infantil de Marcos França, é fruto do encantamento do roteirista Marcelo Cavalcante pelas histórias criadas por sua filha. O filme destoava intensamente da programação da sessão de ontem (28), que foi a segunda noite competitiva entre os curtas neste 21º Cine-PE: Festival do Audiovisual.

Na sequência, Soberanos da resistência, de Marcos Vinícius de Paiva Cunha,  trouxe a perseverança na manutenção da tradição do maracatu. Os personagens da obra garantem só encontrar espaço e notoriedade para ritual em festas populares, enfrentando dificuldades, também, para associar-se a educação e, até mesmo, em assegurar-se como cultura.

Na mostra competitiva de curtas nacionais, a animação O ex-magico, de Olimpio Costa e Mauricio Nunes, apresentou o melancólico personagem que possui a magia de criar vida, mas não consegue por fim a sua própria existência. A obra une a adaptação de dois contos do autor Murilo Rubião: o Ex-mágico da taberna minhota e Teleco, o coelhinho.

No gaúcho, Dia dos namorados, de Roberto Burd, uma senhora contrata uma jovem prostituta com semelhanças físicas a ela própria como presente ao marido idoso no leito de morte. Uma cena de nudez, logo no início da projeção, foi suficiente para estimular reações machista na plateia.

Luiza, documentário dirigido pelo irmão da protagonista, Caio Baú, nos colocou no dia-a-dia de uma jovem deficiente de forma sublime, tratando das preocupações da família da moça no que diz respeito a sua sexualidade.

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