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Zezé Mota encanta em debate no Recife

Zezé Motta: “Me rotularam de diva, mas me sinto coadjuvante”.

Por Luiz Joaquim | 14.06.2017 (quarta-feira)

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Difícil desvincular a imagem da atriz Zezé Motta da figura simbólica que ela é dentro da cultura representativa do negro no Brasil. Vale dizer, porém, que apenas pelo seu talento, nossa eterna Xica da Silva já teria um espaço cativo entre as grandes da arte brasileira; entretanto, em tempos de acirrada luta – luta que nunca teve fim – pelo reconhecimento da dignidade do negro no Pais e no mundo, o debate promovido ontem (13) na Caixa Cultural Recife dentro da programação da mostra Zezé Motta: 50 anos de cinema, teve seu foco transitando entre a história artística da atriz e o seu engajamento pela causa.

A mostra, que segue até sábado (17) na capital pernambucana, foi idealizada por Carla Barbosa – filha de Zezé –, que também assina a curadoria ao lado da atriz e produtora Iléa Ferraz. Foi Iléa quem mediou o debate no Recife entre a homenageada e o cineasta Cacá Diegues.

A curadora lembrou que poucos cineastas no Brasil deram tanto espaço ao negro em sua filmografia. No caso do alagoano, pelo menos cinco de seus 20 filmes, lembrou Iléa, trazem Zezé no elenco. “E houve ainda uma participação em Um trem para as estrelas (1987) da qual fui cortada da edição final”, lembrou Zezé sorrindo.

Ainda no início, Iléa ressaltou o ponto de inflexão na carreira da atriz que foi o fato de ter protagonizado Xica da Silva (1976); enquanto Cacá lembrava que o produtor do filme, o pernambucano Jarbas Barbosa (irmão do Chacrinha), firmou um trato com o diretor – “Se não encontrarmos a atriz certa, não faremos o filme”, disse Jarbas. “Daí o Nelson Motta me disse: vai ver a Zezé numa peça. E encontramos nossa atriz”, lembrou Cacá.

Já Zezé conta como foi assediada em Cannes por ocasião do filme exibido ali. “Antes do Xica, havia viajado para três países, Bolívia, México, Peru, como atriz. Depois dele circulei por mais 16 países. O filme me libertou. E só depois dele fui me inteirar melhor sobre a cultura negra. Nas entrevistas eu era muito indagada sobre isso. No curso que fiz, com a saudosa Lélia Gonzalez [neste momento, Zezé é interrompida por aplausos da platéia com cerca de atentas 50 pessoas], tomei como lema uma de suas frases”, recordou Zezé. “Ela disse: Eu sei porque vocês estão aqui… mas não temos tempo para lamúria”.

Ainda sobre Xica, atriz e cineasta lembraram de situações simbólicas dos bastidores, quando um barco virou e Zezé, que não sabe nadar, só não se afogou porque o próprio Cacá a salvou; ou da preparação de Zezé para a intensa cena da partida do português João Fernandes (Walmor Chagas). “Xica me libertou”, disse Zezé, “e a mim também”, completou Cacá, “pois eu queria fazer um filme sobre a vitória do ser-humano”.

Ilêa lembrou que após Xica da Silva, Zezé só voltaria a protagonizar um filme 30 anos depois – Bom dia, eternidade (2006), de Rogério Moura. “A que atribui isso, Zezé?”, provocou a mediadora. “Me rotularam de diva, mas me sinto coadjuvante”, respondeu.

“Eu digo que alguns grandes atores negros, como o Antônio Pompeo [de Quilombo, também de Diegues], morreram de tristeza, pelo não reconhecimento. No meu caso, o Xica me levou a ficar mais atenta e a me entender o que era ser uma mulher negra. E entendi logo que eu apenas ia manter a minha carreira, mesmo mantendo o risco de ser apenas uma coadjuvante”.

Dentro do significado do que foi o sucesso de Xica não só para Zezé mas para toda a comunidade de artistas negros, Iléa pediu a atriz para comentar seu trabalho ao criar o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan).

“Conversando com Geraldo Casé, eu entendi que os negros não chegavam ao cinema e à tevê porque eles não trabalhavam bem sua imagem como os brancos faziam. Não tinham um portfólio atualizado, e coisas assim, daí surgiu a ideia de reunir num só lugar os dados desses artistas. Um dos grandes orgulhos foi intermediar o contato entre Lázaro Ramos e a produção do Madame Satã, filme que mudou sua carreira”, destacou Zezé.

Sobre os novos projetos no cinema, a homenageada adiantou sua atuação como Deus no novo filme de Toni Venturi, Comédia divina, com estreia para agosto; além da participação no novo trabalho de Jeferson De, Condomínio Jackeline; e ainda a sua presença numa nova série a ser lançada pela tevê Globo em julho próximo, tendo sido feita a partir do filme Sob pressão, de Andrucha Waddington. “Neste, eu faço a moradora de uma comunidade que leva uma bala perdida”.

Após as perguntas da plateia, a atriz encerrou agradecendo nominalmente aos autores dos textos publicado no catálogo da mostra, e coube a Cacá Diegues o mais belo agradecimento de encerramento: “Agradeço por Zezé existir”.

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